Plataforma de aprendizagem interativaO Alienista
Este é o capítulo relacionado ao ponto que você acabou de explorar no Coonto. Leia procurando a evidência no texto de Machado.
CAPÍTULO VI - A REBELIÃO
Cerca de trinta pessoas ligaram-se ao barbeiro, redigiram e levaram uma representação à Câmara.
A Câmara recusou aceitá-la, declarando que a Casa Verde era uma instituição pública, e que a
ciência não podia ser emendada por votação administrativa, menos ainda por movimentos de rua.
—Voltai ao trabalho, concluiu o presidente, é o conselho que vos damos.
A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou que iam dali levantar a bandeira da
rebelião e destruir a Casa Verde; que Itaguaí não podia continuar a servir de cadáver aos estudos e
experiências de um déspota; que muitas pessoas estimáveis, e algumas distintas, outras humildes mas dignas
de apreço, jaziam nos cubículos da Casa Verde; que o despotismo científico do alienista complicava-se do
espírito de ganância, visto que os loucos, ou supostos tais, não eram tratados de graça: as famílias, e em falta
delas a Câmara, pagavam ao alienista...
—É falso! interrompeu o presidente.
—Falso?
—Há cerca de duas semanas recebemos um ofício do ilustre médico em que nos declara que,
tratando de fazer experiências de alto valor psicológico, desiste do estipêndio votado pela Câmara, bem
como nada receberá das famílias dos enfermos.
A notícia deste ato tão nobre, tão puro, suspendeu um pouco a alma dos rebeldes. Seguramente o
alienista podia estar em erro, mas nenhum interesse alheio à ciência o instigava; e para demonstrar o erro era
preciso alguma coisa mais do que arruaças e clamores. Isto disse o presidente, com aplauso de toda a
Câmara. O barbeiro, depois de alguns instantes de concentração, declarou que estava investido de um
mandato público e não restituiria a paz a Itaguaí antes de ver por terra a Casa Verde—"essa Bastilha da razão
humana", — expressão que ouvira a um poeta local e que ele repetiu com muita ênfase. Disse, e a um sinal
todos saíram com ele.
Imagine-se a situação dos vereadores; urgia obstar ao ajuntamento, à rebelião, à luta, ao sangue.
Para acrescentar ao mal, um dos vereadores, que apoiara o presidente ouvindo agora a denominação dada
pelo barbeiro à Casa Verde—"Bastilha da razão humana",—achou-a tão elegante que mudou de parecer.
Disse que entendia de bom aviso decretar alguma medida que reduzisse a Casa Verde; e porque o presidente,
indignado, manifestasse em termos enérgicos o seu pasmo, o vereador fez esta reflexão:
—Nada tenho que ver com a ciência; mas, se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos
por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?
Sebastião Freitas, o vereador dissidente, tinha o dom da palavra e falou ainda por algum tempo com
prudência, mas com firmeza. Os colegas estavam atônitos; o presidente pediu-lhe que, ao menos, desse o
exemplo da ordem e do respeito à lei, não aventasse as suas idéias na rua, para não dar corpo e alma à
rebelião, que era por ora um turbilhão de átomos dispersos. Esta figura corrigiu um pouco o efeito da outra:
Sebastião Freitas prometeu suspender qualquer ação reservando-se o direito de pedir pelos meios legais a
redução da Casa Verde. E repetia consigo, namorado:—“Bastilha da razão humana!”
Entretanto, a arruaça crescia. Já não eram trinta, mas trezentas pessoas que acompanhavam o
barbeiro, cuja alcunha familiar deve ser mencionada, porque ela deu o nome à revolta; chamavam-lhe o
Canjica—e o movimento ficou célebre com o nome de revolta dos Canjicas. A ação podia ser restrita,—
visto que muita gente, ou por medo, ou por hábitos de educação, não descia à rua; mas o sentimento era
unânime, ou quase unânime, e os trezentos que caminhavam para a Casa Verde,—dada a diferença de Paris a
Itaguaí,—podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha.
D. Evarista teve notícia da rebelião antes que ela chegasse; veio dar-lha uma de suas crias. Ela
provava nessa ocasião um vestido de seda,—um dos trinta e sete que trouxera do Rio de Janeiro,—e não quis
crer.
—Há de ser alguma patuscada, dizia ela, mudando a posição de um alfinete. Benedita, vê se a barra
está boa.
—Está, sinhá, respondia a mucama de cócoras no chão, está boa. Sinhá vira um bocadinho. Assim.
Está muito boa.
—Não é patuscada, não, senhora; eles estão gritando: — Morra o Dr. Bacamarte!!! o tirano! dizia o
moleque assustado.
—Cala a boca, tolo! Benedita, olha aí do lado esquerdo; não parece que a costura está um pouco
enviesada? A risca azul não segue até abaixo; está muito feio assim; é preciso descoser para ficar igualzinho
e...
— Morra o Dr. Bacamarte!!! morra o tirano! uivaram fora trezentas vozes. Era a rebelião que
desembocava na Rua Nova.
D. Evarista ficou sem pinga de sangue. No primeiro instante não deu um passo, não fez um gesto; o
terror petrificou-a. A mucama correu instintivamente para a porta do fundo. Quanto ao moleque, a quem D.
Evarista não dera crédito, teve um instante de triunfo súbito, um certo movimento súbito, imperceptível,
entranhado, de satisfação moral, ao ver que a realidade vinha jurar por ele.
—Morra o alienista! bradavam as vozes mais perto.
D. Evarista, se não resistia facilmente às comoções de prazer, sabia entestar com os momentos de
perigo. Não desmaiou; correu à sala interior onde o marido estudava. Quando ela ali entrou, precipitada, o
ilustre médico escrutava um texto de Averróis;; os olhos dele, empanados pela cogitação, subiam do livro ao
teto e baixavam do teto ao livro, cegos para a realidade exterior, videntes para os profundos trabalhos
mentais. D. Evarista chamou pelo marido duas vezes, sem que ele lhe desse atenção; à terceira, ouviu e
perguntou-lhe o que tinha, se estava doente.
—Você não ouve estes gritos? perguntou a digna esposa em lágrimas.
O alienista atendeu então; os gritos aproximavam-se, terríveis, ameaçadores; ele compreendeu
tudo. Levantou-se da cadeira de espaldar em que estava sentado, fechou o livro, e, a passo firme e tranqüilo,
foi depositá-lo na estante. Como a introdução do volume desconsertasse um pouco a linha dos dois tomos
contíguos, Simão Bacamarte cuidou de corrigir esse defeito mínimo, e, aliás, interessante. Depois disse à
mulher que se recolhesse, que não fizesse nada.
—Não, não, implorava a digna senhora, quero morrer ao lado de você...
Simão Bacamarte teimou que não, que não era caso de morte; e ainda que o fosse, intimava-lhe, em
nome da vida, que ficasse. A infeliz dama curvou a cabeça, obediente e chorosa.
—Abaixo a Casa Verde! bradavam os Canjicas.
O alienista caminhou para a varanda da frente, e chegou ali no momento em que a rebelião também
chegava e parava, defronte, com as suas trezentas cabeças rutilantes de civismo e sombrias de desespero.—
Morra! morra! bradaram de todos os lados, apenas o vulto do alienista assomou na varanda. Simão
Bacamarte fez um sinal pedindo para falar; os revoltosos cobriram-lhe a voz com brados de indignação.
Então, o barbeiro, agitando o chapéu, a fim de impor silêncio à turba, conseguiu aquietar os amigos, e
declarou ao alienista que podia falar, mas acrescentou que não abusasse da paciência do povo como fizera até
então.
—Direi pouco, ou até não direi nada, se for preciso. Desejo saber primeiro o que pedis.
—Não pedimos nada, replicou fremente o barbeiro; ordenamos que a Casa Verde seja demolida, ou
pelo menos despojada dos infelizes que lá estão.
—Não entendo.
—Entendeis bem, tirano; queremos dar liberdade às vítimas do vosso ódio, capricho, ganância...
O alienista sorriu, mas o sorriso desse grande homem não era coisa visível aos olhos da multidão;
era uma contração leve de dois ou três músculos, nada mais. Sorriu e respondeu:
—Meus senhores, a ciência é coisa séria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos
meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa
Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas se exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia
convidar alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver comigo os loucos reclusos; mas não o faço, porque
seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos nem a rebeldes.
Disse isto o alienista, e a multidão ficou atônita; era claro que não esperava tanta energia e menos
ainda tamanha serenidade. Mas o assombro cresceu de ponto quando o alienista, cortejando a multidão com
muita gravidade, deu-lhe as costas e retirou-se lentamente para dentro. O barbeiro tornou logo a si e,
agitando o chapéu, convidou os amigos à demolição da Casa Verde; poucas vozes e frouxas lhe
responderam. Foi nesse momento decisivo que o barbeiro sentiu despontar em si a ambição do governo;
pareceu-lhe então que, demolindo a Casa Verde e derrocando a influência do alienista, chegaria a
apoderar-se da Câmara, dominar as demais autoridades e constituir-se senhor de Itaguaí. Desde alguns anos
que ele forcejava por ver o seu nome incluído nos pelouros para o sorteio dos vereadores, mas era recusado
por não ter uma posição compatível com tão grande cargo. A ocasião era agora ou nunca. Demais fora tão
longe na arruaça que a derrota seria a prisão, ou talvez a forca, ou o degredo. Infelizmente, a resposta do
alienista diminuíra o furor dos sequazes. O barbeiro, logo que o percebeu, sentiu um impulso de indignação,
e quis bradar-lhes:—Canalhas! covardes! —mas conteve-se e rompeu deste modo:
Meus amigos, lutemos até o fim! A salvação de Itaguaí está nas vossas mãos dignas e heróicas.
Destruamos o cárcere de vossos filhos e pais, de vossas mães e irmãs, de vossos parentes e amigos, e de vós
mesmos. Ou morrereis a pão e água, talvez a chicote, na masmorra daquele indigno.
E a multidão agitou-se, murmurou, bradou, ameaçou, congregou-se toda em derredor do barbeiro.
Era a revolta que tornava a si da ligeira síncope e ameaçava arrasar a Casa Verde.
—Vamos! bradou Porfírio agitando o chapéu.
—Vamos! repetiram todos.
Deteve-os um incidente: era um corpo de dragões que, a marche-marche, entrava na Rua Nova.